Partindo da vontade de criar um verdadeiro diálogo entre dois mundos — o saber-fazer do denim americano e o savoir-faire da alta-costura francesa —, nasceu a colaboração entre a designer Christelle Kocher e a Levi’s. Ao longo de quase duas décadas a trabalhar ao lado de alguns dos maiores artesãos de França na Maison Lemarié, a designer francesa construiu um percurso ligado ao trabalho artesanal e à ideia de ligar herança e inovação, alta-costura e vida quotidiana. Dessa paixão pelo fazer manual nasceu este projeto, em que, mais do que simplesmente decorar o denim, ambos quiseram mostrar que inovação e tradição podem coexistir e que o próprio trabalho artesanal pode tornar‑se a linguagem da moda.
Apresentada em Paris, durante a Semana de Alta-Costura, esta coleção cápsula de dez coordenados levou o denim para outro patamar: pregas Lognon, penas, flores feitas à mão, cristais Swarovski, forros em seda e bordados escultóricos dão uma nova vida a jeans, trucker jackets e fatos-macaco de workwear. Um trabalho que exigiu uma sinergia constante entre as equipas da Levi’s em São Francisco e Londres e o estúdio de Kocher em Paris.
A coleção espelha também a própria vida da criadora entre França e os Estados Unidos da América: entre duas culturas, entre o artesanato francês e a autenticidade americana, entre o quotidiano e a alta‑costura.
Christelle Kocher em entrevista
Como surgiu esta colaboração com a Levi’s?
Esta colaboração nasceu de uma paixão partilhada pelo trabalho artesanal. Quis criar um diálogo entre dois mundos: a Levi’s, um dos maiores fabricantes de denim do mundo, com um legado extraordinário e um know-how técnico único, e a minha própria experiência após dezassete anos a trabalhar com as excecionais Maisons d’Art francesas, em particular a Maison Lemarié.
A ideia nunca foi simplesmente decorar o denim. Foi explorar o que acontece quando o saber-fazer do denim americano encontra o savoir-faire da alta-costura francesa. Juntos, quisemos celebrar a beleza do fazer, mostrando que inovação e tradição podem coexistir e que o próprio trabalho artesanal pode tornar-se a linguagem da moda.
Para mim, este projeto reflete também a minha vida entre França e os Estados Unidos. É um encontro entre duas culturas que me inspiram constantemente: o artesanato francês e a autenticidade americana.

Christelle Kocher na Levi’s
Apresentaram a colaboração durante a Semana de Alta-Costura. Por quê?
A Semana de Alta-Costura foi o momento mais significativo para apresentar esta coleção porque, acima de tudo, é uma celebração do trabalho artesanal. A produção de denim já é, por si só, um processo extremamente técnico e artesanal. Com este projeto, levámo-lo ainda mais longe. O denim tornou-se matéria-prima de alta-costura através de pregueados, trabalho com penas, construções florais, bordados com cristais e manipulação escultórica do tecido. Algumas peças exigiram várias centenas de horas de trabalho manual minucioso.
Apresentar a coleção durante a Couture Week criou também a oportunidade para os visitantes observarem as peças de perto. Podiam apreciar cada ponto, cada prega, cada pena e cada detalhe feito à mão. Era importante abrandar e celebrar o valor do tempo, da emoção e do trabalho humano aplicados a um dos materiais mais democráticos e universais do mundo.
Quis demonstrar que o denim merece o mesmo nível de arte e respeito que qualquer tecido de alta-costura.
The Velvet Garnet DENIM Suit: Partindo dos icónicos jeans LEVI’S® 501® e da jaqueta Trucker, esta silhueta de corte personalizado é reinventada em Velvet Garnet, um tom exclusivo desenvolvido em colaboração com o LEVI’S® Eureka Innovation Lab, em São Francisco. O fato é totalmente forrado a seda preta. O casaco e as calças de ganga são bordados à mão com correntes de Swarovski, pérolas e contas de azeviche, criando um requintado motivo de riscas finas. Penas de avestruz pretas queimadas emolduram a silhueta, enquanto o plissado de seda, criado utilizando as técnicas de plissagem Lognon na Maison Lemarié, suaviza os contornos. Flores de DENIM feitas à mão emergem por entre o trabalho de penas, acrescentando movimento e uma leveza poética. O chapéu de alta-costura desconstruído e dramático é feito com penas de avestruz pretas. Um trabalho que demorou cerca de 450 horas (200 horas para o casaco, 200 horas para as calças de ganga, 50 horas para o chapéu).
De onde partiu a inspiração?
Tudo começou com o próprio denim e com o incrível legado da Levi’s. Interessei-me por criar um diálogo entre o vestuário do dia a dia e a alta-costura — trazê-la para a vida quotidiana, ao mesmo tempo que introduzia a leveza descontraída do denim. O icónico 501, o Trucker Jacket e o fato-macaco de workwear de arquivo foram os nossos pontos de partida.
Visitei o Levi’s Eureka Innovation Lab em São Francisco, onde desenvolvemos cores exclusivas, como Electric Viridian e Velvet Garnet, juntamente com qualidades de denim excecionalmente leves de 3 oz, 4 oz e 5 oz, que nos permitiram criar movimento e fluidez raramente associados ao denim.
A partir daí, transformámos estas peças icónicas usando o vocabulário da alta-costura francesa: pregas Lognon, penas, flores feitas à mão, cristais Swarovski, forros em seda e bordados escultóricos.
Quis que a coleção fosse alegre, moderna e poética, mantendo-se profundamente enraizada na identidade da Levi’s.

O trabalho manual
Como preservou a identidade da Levi’s ao mesmo tempo acrescentou o seu toque?
Respeitar o legado da Levi’s foi essencial desde o início. Preservámos cuidadosamente todos os detalhes de construção icónicos: bolsos, rebites, presilhas, pespontos e modelagem original. Revisitámos silhuetas de arquivo da marca, incluindo jeans de cintura subida inspirados nos anos 70 e peças autênticas de workwear em denim. Depois, introduzi o meu próprio vocabulário de alta-costura. Pregas em leque de seda, criadas com os ateliers Lognon da Maison Lemarié, foram integradas em jeans e casacos. As penas suavizaram as silhuetas, os cristais enquadraram as costuras, flores feitas à mão emergiram dos bordados e até as t-shirts básicas de algodão se tornaram peças de alta-costura.
Nunca se tratou de mudar a Levi’s. Tratou-se de revelar outro lado da marca: uma interpretação mais suave, poética e emocional, mantendo intacta a sua autenticidade.
Quais foram os maiores desafios que encontrou ao desenhar a coleção?
O denim é um material extremamente técnico. Tem resistência e estrutura, mas a alta-costura exige frequentemente leveza, movimento e fluidez. Um dos maiores desafios foi encontrar o equilíbrio certo entre estes dois mundos. Em conjunto com as equipas da Levi’s, desenvolvemos novas qualidades de denim ultraleve em 3 oz, 4 oz e 5 oz, que pudessem ser pregueadas, bordadas e manipuladas como tecidos de alta-costura.
O projeto foi também um notável esforço colaborativo entre diferentes ateliers e países. A modelagem foi desenvolvida com as equipas da Levi’s em São Francisco e Londres, enquanto o meu estúdio em Paris desenvolveu muitas das construções de alta-costura. As peças circularam entre vários especialistas: a Levi’s montou as bases em denim, a Maison Lemarié criou as pregas Lognon — em leque, Watteau, planas e em acordeão — antes de serem acrescentados à mão bordados, penas, flores, aplicações em denim cortadas a laser e acabamentos.
Foi uma coreografia fascinante entre inovação, artesanato e logística, com cada atelier a contribuir com a sua perícia excecional.
The Nadjah DENIM Pleated Dress: Confecionado em denim excepcionalmente leve de 4 oz, desenvolvido em estreita colaboração com a equipa de design da LEVI’S®. Este vestido apresenta a prega em acordeão «sunray» exclusiva da Nadjah, criada utilizando as técnicas de pregas Lognon da Maison Lemarié. Oito painéis plissados de alta-costura, inspirados nas técnicas lendárias de Madame Grès, criam uma silhueta arquitetónica mas fluida. Penas de avestruz formam um impressionante degradé que vai do azul elétrico ao índigo e ao preto profundo, enquanto fragmentos de denim cortados a laser são delicadamente aplicados por todo o trabalho com penas. Um cinto de denim preto deslavado define a cintura, equilibrando estrutura e movimento e completando esta interpretação de alta-costura do denim. Um trabalho que demorou cerca de 300 horas.
Tem alguma peça favorita?
É impossível escolher apenas uma, porque cada look explora um aspeto diferente do denim em alta-costura. O Nadjah Pleated Dress é certamente um dos meus favoritos. Desenvolvido em denim ultraleve de 4 oz, apresenta uma prega em acordeão tipo sunray personalizada, inspirada no trabalho lendário de Madame Grès. A arquitetura das pregas contrasta lindamente com o degradé suave das boas de penas de avestruz, criando uma ilusão de movimento sem esforço, apesar do extraordinário trabalho artesanal envolvido.
Também adoro a silhueta Electric Viridian. O verde exclusivo desenvolvido com o Eureka Innovation Lab é completamente novo no universo do denim. As calças de cintura subida, com pregas em leque de seda em cascata, quase se transformam numa saia, mantendo-se extremamente modernas e usáveis. Combinadas com o bustier escultórico adornado com flores feitas à mão, expressam na perfeição o encontro entre alta-costura e vestuário quotidiano.
Outra favorita é a Denim Feather Cape. Milhares de pétalas em denim e chiffon de seda, desfiadas à mão, criam a ilusão de penas, sendo simplesmente usada sobre jeans brancos. Adoro este contraste. É dramático, mas ao mesmo tempo descontraído. É exatamente isso que procuro: trazer a emoção da alta-costura para o dia a dia através de um dos tecidos mais democráticos do mundo.
The DENIM Feather Cape: Esta capa de alta-costura espetacular é inteiramente composta por denim e pétalas e folhas de chiffon de seda, cada uma delas desfiada à mão individualmente para evocar a leveza das penas. Tingida à mão num subtil degradé que vai do marfim e do cinzento suave, passando pelo azul denim, até ao preto profundo, a capa é totalmente forrada a preto e revela uma profundidade e um movimento excecionais. É combinada com calças de ganga de cintura alta e leves, de 4 oz, realçadas por inserções laterais em plissado de seda «sunray» em cascata, criadas utilizando as técnicas de plissagem Lognon da Maison Lemarié. Bordados de cristais e pérolas inspirados na Art Déco traçam os contornos da silhueta, conferindo ritmo, movimento e elegância de alta-costura. Um trabalho que demorou cerca de 290 horas (250 horas para a capa, 40 horas para as calças).
Para quem não a conhece, quem é Christelle Kocher?
Sou alguém que sempre foi fascinada pelo trabalho artesanal e pela emoção que a roupa pode criar. Durante quase duas décadas, tive o privilégio de trabalhar ao lado de alguns dos maiores artesãos de França na Maison Lemarié, aprendendo técnicas excecionais enquanto questionava constantemente como podem permanecer vivas e relevantes hoje.
Através da KOCHÉ, procurei sempre trazer um toque de alta-costura para o quotidiano: combinar elegância com autenticidade, emoção com praticidade e artesanato com cultura contemporânea.
A curiosidade sempre foi a minha maior força motriz. Inspiro-me constantemente nas pessoas, nas viagens, na arte, na cultura urbana e nos saberes tradicionais. Acredito que a moda deve ser alegre, generosa e emocional, celebrando as pessoas extraordinárias cujas mãos lhe dão vida.
The Electric Viridian DENIM Silhouette: As calças de cintura alta são confecionadas em denim Electric Viridian, um tom exclusivo desenvolvido em colaboração com o LEVI’S® Eureka Innovation Lab, em São Francisco. As impressionantes inserções em seda com plissado «sunray», criadas utilizando as técnicas de plissagem Lognon na Maison Lemarié, são emolduradas por bordados de cristal inspirados no Art Déco, conferindo ritmo e luz a cada passo. O bustier escultural em denim preto elástico desdobra-se numa parte traseira plissada de caráter arquitetónico e é enriquecido com flores de organza de seda feitas à mão, criadas utilizando as técnicas de plissagem Lognon na Maison Lemarié. Um chapéu bibi com véu da Maison Michel, ornamentado com flores de denim e penas de ganso, completa a silhueta. Um trabalho que demorou cerca de 110 horas (40 horas para as calças, 70 horas para o bustier).
Como tem sido o seu percurso na indústria da moda?
Tive a enorme sorte de aprender com algumas das maiores mentes criativas da moda. Ao longo da minha carreira, trabalhei com designers inspiradores, como Karl Lagerfeld, Giorgio Armani, Virginie Viard, Sonia Rykiel, Dries Van Noten e Martine Sitbon. Cada um deles ensinou-me a importância da curiosidade, da precisão e de ultrapassar constantemente os limites criativos.
Paralelamente ao desenvolvimento da KOCHÉ, fui durante mais de dezassete anos diretora artística da Maison Lemarié, rodeada de artesãos extraordinários. O seu savoir-faire inspira-me diariamente e recorda-me que é algo que deve evoluir constantemente.
Tive também a oportunidade de colaborar com parceiros notáveis de universos muito distintos, desde a Nike e as equipas de inovação da Google em São Francisco até à Pokémon e mestres artesãos japoneses. Cada colaboração ampliou a minha perspetiva criativa e mostrou-me que a inovação pode surgir do artesanato, da tecnologia ou da cultura.
Esta colaboração com a Levi’s surge como uma continuação natural desse percurso. Junta a mestria do denim americano ao excecional savoir-faire das Maisons d’Art francesas. É assim que gosto de trabalhar: criando diálogos significativos entre diferentes mundos que partilham a mesma paixão pelo trabalho artesanal.
Olhando para trás, percebo que a minha carreira sempre foi sobre ligar herança e inovação, alta-costura e vida quotidiana. Continuo a abordar cada projeto com a mesma curiosidade do início, sempre com o objetivo de criar emoção através da moda.





