Associado ao relaxamento e às tão esperadas e merecidas férias, o verão é, para nós, a estação do descanso. Dias compridos, passados fora de casa, sem fazer nada. Porém, para os animais de companhia, a realidade é outra. Segundo Teresa Rousseau, médica veterinária e consultora Pet Remedy, “o verão é uma das alturas do ano que mais contribui para o aumento dos níveis de ansiedade nos animais”.Os animais valorizam a previsibilidade e, por isso, as alterações na rotina, típicas da estação quente, são motivo suficiente para desequilibrar o seu bem-estar. É, por isso, extremamente importante conhecer bem o seu companheiro de quatro patas, para interpretar os sinais de alarme e poder agir, prevenindo ou ajudando a acalmar, de modo a devolver-lhes o bem-estar de que necessitam.
Teresa Rousseau, médica veterinária e consultora Pet Remedy, em entrevista
Cães e gatos podem sofrer de ansiedade de forma semelhante aos humanos? Em que é que se aproxima e em que difere?
Tal como nós, os cães e gatos são mamíferos, por isso são mais propícios a sofrer de emoções semelhantes às humanas, tal como a ansiedade. Contudo, a causa da ansiedade é que é muito distinta. Nos humanos a causa é mais racional, enquanto que no caso dos animais, estes respondem sobretudo a estímulos concretos e imediatos do ambiente que os rodeia. Ou seja, como somos biologicamente diferentes, e temos formas distintas de comunicar, os animais demonstram emoções como medo, alegria, ansiedade, frustração e afeição através do comportamento, e entre os fatores desencadeantes estão sobretudo, mudanças na rotina, ansiedade de separação, experiências traumáticas, falta de socialização, barulhos excessivos, viagens de carro, entre outros. No caso das emoções mais complexas, como a culpa, que é associada a certos comportamentos, na realidade o que os animais demonstram é medo da reação do tutor a um determinado comportamento seu, devido ao tom de voz ou expressão corporal e facial do tutor.
Quais os sintomas a que devem os donos estarem atentos?
É muito importante que cada tutor conheça bem o seu animal para conseguir identificar os sinais de ansiedade. Isto porque, por desconhecimento, são sinais que podem ser facilmente com teimosia, desobediência ou feitio. Por exemplo, no caso do cão, entre os principais sinais destacamos:
- Choramingar ou ladrar em excesso;
- Mordiscar ou destruir objetos;
- Ainda fazer ou voltar a fazer as necessidades dentro de casa;
- Estar mais inquieto;
- Demonstrar falta de interação, maior agressividade, ou perda de apetite.
No caso do gato, como seres mais independentes que são, os sinais são um pouco mais difíceis de identificar, mas destacamos:
- Andar a esconder-se mais que o habitual;
- Parar de usar a caixa de areia;
- Estar mais agressivo;
- Demonstrar excesso ou falta de higiene;
- Perder o apetite.
Que fatores podem desencadear ou agravar estados de ansiedade nos cães e nos gatos?
Estes comportamentos podem ser despoletados por situações do dia-a-dia que para os humanos são comuns, mas para os animais, que interpretam o mundo através de instinto, experiência e associações, são fator de alerta. Os animais valorizam a previsibilidade e o vínculo, e para um cão ou gato, “normal” é aquilo que acontece com frequência, como horários, rotinas, espaços e humanos familiares. Por isso, quando situações como a chegada de um novo membro à família, seja humano ou outro animal, mudança de ambiente, como a chegada a uma nova casa (quando bebés ou adotados), mudança de casa (mesmo que seja em família), ou férias, andar de carro, sejam viagens curtas ou longas, idas ao veterinário, solidão, alterações de rotina, como novos horários para comer ou ir à rua, falta de exercício ou estímulos ou ruídos fortes, sejam obras, trovoadas ou fogos de artifício, são interpretadas como verdadeiras ameaças.
Que impacto é que estes estados de ansiedade podem ter na saúde física e no comportamento do animal, se não forem acompanhados?
Quando o bem-estar emocional do animal fica comprometido, e não são tomadas medidas para se controlar ou terminar com este estado, aumentam as probabilidades de situações de stress crónico que se traduzem em níveis de cortisol elevados que podem debilitar o sistema imunológico e causar diversas manifestações físicas como por exemplo, problemas cutâneos ou digestivos. Em animais com baixo bem-estar psicológico, além de poderem ficar doentes com maior frequência, também demonstram maiores tempos de recuperação física.
Que mudanças típicas do verão podem desequilibrar a rotina e o bem-estar dos animais de companhia?
O verão é uma das alturas do ano que mais contribui para o aumento dos níveis de ansiedade nos animais, porque muitos dos fatores desencadeadores acontecem em simultâneo. Como por exemplo: mais e mais longas viagens de carro, mudanças na rotina que inclui, muitas vezes, a mudança de casa, novos horários para passear ou para comer, mais pessoas reunidas, idas para hotéis de animais ou casas de “estranhos”, ruídos mais fortes e mais constantes, seja na própria casa ou na rua, como festas, foguetes ou fogo de artifício.
Qual o impacto?
Estas mudanças são muito confusas para os animais porque estes não percebem o que é que está a acontecer. Nós, humanos, sabemos que as mudanças são provisórias, mas os animais não sabem que estão de férias, nem têm noção da duração das mesmas. Só sabem que, de repente, tudo o que era normal para eles, mudou. E isto tem um impacto enorme a nível do bem-estar emocional.
Como fazer esta mudança de uma forma mais subtil?
A preparação das férias e a adaptação a uma nova rotina, pode e deve ser feita com uma a duas semanas de antecedência e entre as medidas a adotar sugerimos:
- Enriquecimento ambiental, através de brinquedos interativos e estímulos mentais, que contribuem para manter o animal ocupado e reduzir o stress;
- Rotina de exercício físico mais regular, especialmente antes de períodos de ausência e preparar o animal gradualmente para a ausência, ao sair por períodos curtos, que podem ir aumentando aos poucos;
- Uso de produtos naturais que atuam no ambiente, à base de óleos essenciais como a valeriana, vetivere manjericão e sálvia, que existem em formato de ambientador ou spray. Estes produtos permanecem no ambiente ou podem ser pulverizados na cama, num lenço, ou nos brinquedos e atuam suavemente sobre o sistema nervoso do animal, ajudando a reduzir o stress, a ansiedade e o medo, sem sedar;
- Manter rotinas e horários consistentes de alimentação e passeios;
- Nas semanas que antecedem o uso, familiarizar o animal com a transportadora, principalmente com os gatos. Pode-se colocar este objeto, que costuma estar guardado, à mostra num local de passagem e colocar no seu interior coisas que eles gostem muito como guloseimas ou o seu brinquedo preferido;
- Se o animal não está habituado a andar de carro, sugerimos que comece por fazer viagens curtas, com aumento gradual do tempo, nas semanas anteriores;
- Deixar objetos com cheiro do tutor, como mantas ou roupa durante as ausências;
- Apostar no reforço positivo para incentivar as pequenas conquistas.
Que erros de rotina são mais comuns no verão e que podem contribuir para o aumento da ansiedade?
No verão, praticamente toda a rotina muda e em simultâneo, mesmo que os animais permaneçam com os seus tutores. Não existem horários, os períodos de ausência dos tutores também mudam, e, para agravar, é provável que aconteça noutro ambiente diferente daquele a que os animais estão habituados. A ida para um hotel para animais, sobretudo no caso dos cães, ou ficarem em casa sozinhos, no caso dos gatos, é outra mudança que também contribui para o aumento da ansiedade porque os animais não sabem que a situação é temporária e sentem-se abandonados.
Existem raças, idades ou perfis de cães e gatos que tendem a ser mais vulneráveis à ansiedade, sobretudo em contexto de verão e férias?
Mais do que a raça, o fator mais importante é o perfil individual do animal. O seu historial, a idade, personalidade, a forma como foi socializado, o ambiente em que vive e as experiências anteriores influenciam muito a capacidade de adaptação.
Entre os cães mais vulneráveis, podemos destacar cães muito ligados aos tutores, que podem desenvolver ansiedade de separação quando a família viaja ou passa mais tempo fora de casa, e destacar raças mais sensíveis como o Border Collie, o Pastor-Australiano, o Pastor-Alemão, o Vizsla, ou o Cocker Spaniel. De referir também cães de pequeno porte como o Chihuahua ou o Yorkshire Terrier que, pelas suas características, podem ter níveis de socialização mais baixos. Também destacaria animais adotados ou com historial de abandono ou maus-tratos, que podem reagir de forma mais intensa a mudanças de ambiente ou de rotina.
No caso dos gatos, de um modo geral, tendem a ser muito sensíveis a alterações no território e na rotina, porque, por norma, vivem em ambiente interior e com pouca socialização. Pelo que podem sentir maior ansiedade perante a mudança de espaço, deslocações, contacto com pessoas ou animais desconhecidos ou permanência em hotéis para animais.
Há alguma ‘checklist’ rápida que recomende aos donos antes de mudar o animal de ambiente para reduzir o risco de ansiedade?
A melhor forma de reduzir a ansiedade é tornar a mudança o mais previsível e familiar possível, e se o tutor seguir a check list abaixo, certamente que vai sentir diferença.
- Preservar a rotina, os horários habituais das refeições, manter a alimentação, passeios (no caso dos cães) e momentos de descanso;
- Levar objetos familiares, como a cama, mantas, brinquedos e comedouros habituais. O cheiro destes objetos transmite segurança e facilita a adaptação e colocá-los num espaço próprio no novo local;
- Evitar forçar interações, dando tempo ao animal para explorar o ambiente ao seu ritmo, sem obrigá-lo a contactar imediatamente com pessoas ou outros animais;
- Planear a viagem com pausas regulares em viagens longas com cães, assegurar uma boa ventilação e nunca deixar o animal sozinho dentro do carro, mesmo por poucos minutos. Habituar previamente à transportadora e/ou ao carro e usar sprays calmantes naturais durante o processo;
- Se o animal tiver histórico de ansiedade e estas dicas não tiverem funcionado no passado, recomendo falar com o médico veterinário para que possam definir um plano preventivo e personalizado.
Quando é que se deve considerar apoio profissional específico?
Quando as estratégias implementadas pré e/ou durante as férias não funcionam e a mudança de comportamento se agrava sem motivo. Ou quando os tutores notam que, mesmo depois do regresso à normalidade, os sintomas se mantêm ou pioram.





