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As férias de que as crianças realmente precisam

As férias são, para muitos, sinónimo de descanso, liberdade e tempo em família. No entanto, quando pensamos nas férias das crianças, é frequente surgirem listas intermináveis de atividades, campos de férias, ateliers, passeios e experiências que prometem tornar cada dia inesquecível. Na verdade, sem nos apercebermos, corremos o risco de transformar aquilo que deveria ser uma pausa numa agenda tão preenchida como a do resto do ano.

É natural que, enquanto pais, queiramos aproveitar ao máximo este período. Queremos criar memórias, proporcionar experiências diferentes e fazer com que os nossos filhos tenham umas férias felizes. No entanto, por vezes, esquecemo-nos de que aquilo que é memorável para uma criança nem sempre são as atividades mais elaboradas. Muitas das suas melhores recordações nascem dos momentos mais simples: uma manhã sem pressa, uma brincadeira inventada no quintal, um gelado partilhado ao final da tarde ou uma conversa tranquila em família.

A verdade é que as crianças não precisam de ter todos os dias preenchidos para aproveitarem o verão. Pelo contrário, precisam de tempo livre para brincar, explorar, imaginar e até para se aborrecerem. Embora, para os adultos, o tédio possa parecer algo negativo, na infância ele pode ser um importante motor da criatividade. Quando não têm uma atividade previamente definida, as crianças são desafiadas a inventar jogos, criar histórias, resolver pequenos problemas e descobrir novas formas de se divertirem, desenvolvendo competências fundamentais para o seu crescimento, como a autonomia, a criatividade, a capacidade de resolução de problemas e a autorregulação.

Não nos esqueçamos nunca de que as férias são também uma oportunidade para as crianças recuperarem do ritmo intenso que caracteriza o ano letivo. Durante vários meses, os dias são marcados por horários, regras, aprendizagens, atividades extracurriculares e uma sucessão de estímulos que exigem um grande esforço de adaptação e autorregulação. Embora esta rotina seja importante e faça parte do seu desenvolvimento, também pode ser exigente, tanto do ponto de vista físico como emocional. Desta forma, tal como os adultos precisam de desligar do trabalho para recuperar energias, as crianças também beneficiam de um período em que podem abrandar e libertar-se da pressão das rotinas.

É precisamente neste tempo de maior tranquilidade que o organismo tem oportunidade de recuperar. Dormir um pouco mais, acordar sem despertador, fazer as refeições sem olhar constantemente para o relógio, brincar sem a preocupação de cumprir horários ou simplesmente passar uma tarde sem grandes planos contribui para reduzir os níveis de stress e promover uma maior sensação de bem-estar.

Enquanto pais, é natural que queiramos proporcionar o melhor aos nossos filhos. Não obstante, o “melhor” nem sempre está nas férias mais caras, nos programas mais elaborados ou nas atividades mais organizadas. Muitas vezes, encontra-se nas pequenas rotinas de verão: um passeio ao final da tarde, uma manhã sem pressa, um piquenique improvisado, uma ida à praia ou simplesmente uma tarde passada a brincar no jardim.

Daqui a alguns anos, é pouco provável que as crianças se recordem de todas as atividades que fizeram durante as férias. Mas lembrar-se-ão de como se sentiram. Da liberdade de correr descalças, das gargalhadas partilhadas, da atenção que receberam e do tempo que os adultos escolheram dedicar-lhes…


Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.

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@ana.catarina.mesquita

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