Vivemos numa sociedade onde frases como “estás mais magra”, “engordaste”, “estás com ótimo aspeto” ou “precisas de perder peso” continuam a fazer parte das conversas do dia a dia. Não são dirigidas apenas a desconhecidos nas redes sociais, mas também ditas entre amigos e familiares. Nos últimos dias, a propósito deste tema, voltou a instalar-se um debate que, na verdade, nunca desapareceu: até que ponto é legítimo comentar o corpo de outra pessoa?
Segundo a psicóloga Cátia Silva, muitas vezes, quem diz estas frases acredita que está apenas a fazer uma observação ou até um elogio e parte de uma necessidade de comparação: “Enquanto psicóloga clínica, acredito que esta necessidade revela muito mais sobre quem comenta do que sobre quem recebe o comentário. O ser humano está programado para comparar. Fazemo-lo constantemente como forma de compreender o mundo e perceber onde nos situamos em relação aos outros. O problema surge quando essa comparação se transforma em julgamento e quando passamos a acreditar que a aparência física nos permite tirar conclusões sobre a vida, a personalidade, a saúde ou até a felicidade de alguém. É um mecanismo automático, mas não deixa de ser um preconceito “, revela.
Cátia Silva, psicóloga
A especialista explica que continuamos a associar, muitas vezes de forma inconsciente, um corpo magro à disciplina, ao sucesso, à saúde ou à felicidade. Da mesma forma, tendemos a associar corpos com excesso de peso à falta de controlo, ao desleixo ou à infelicidade. Estas ideias não nascem connosco. São construídas ao longo de anos através da cultura, da publicidade, dos meios de comunicação e das mensagens que fomos recebendo desde a infância sobre aquilo que um corpo “deveria” ser.
Porém, o corpo, por si só, não conta a história de ninguém: “Uma pessoa pode ter emagrecido porque enfrenta uma depressão, um cancro, um processo de luto ou uma perturbação do comportamento alimentar. Outra pode ter aumentado de peso devido a medicação, alterações hormonais, doença ou mudanças naturais da vida. Ainda assim, continuamos a acreditar que conseguimos interpretar a realidade de alguém apenas porque olhamos para o seu corpo”, explica a psicóloga.
As consequências vão muito além de um momento desconfortável. Cátia Silva refere que, comentários repetidos sobre a aparência física, podem ter um impacto significativo na saúde mental, como aumentar a insatisfação corporal, alimentar sentimentos de vergonha e culpa, reduzir a autoestima, favorecer sintomas de ansiedade e depressão e, em pessoas mais vulneráveis, contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de perturbações do comportamento alimentar.
Outro aspeto menos discutido, mas relevante, é o de que muitas pessoas começam a evitar situações sociais por receio dos comentários sobre o seu corpo. “Deixam de ir à praia, recusam fotografias, evitam eventos familiares ou deixam de praticar exercício físico, porque sentem que estão constantemente sob avaliação”, explica a especialista.
Ferramentas para lidar com esta realidade
A primeira mudança, explica Cátia Silva, começa em cada um de nós. Antes de comentar o corpo de alguém, pergunte-se: “Esta pessoa pediu a minha opinião?”.
Na maioria das situações, a resposta será não. Em vez de comentar a aparência, podemos interessar-nos genuinamente pela pessoa. Perguntar como está, reconhecer uma qualidade, elogiar uma competência ou celebrar uma conquista, cria ligações muito mais saudáveis do que qualquer observação sobre o peso.
Para quem recebe estes comentários, também é importante recordar que não existe obrigação de justificar o próprio corpo. Estabelecer limites é saudável. Responder “prefiro não falar sobre o meu corpo” ou simplesmente mudar de assunto são formas legítimas de proteger o próprio bem-estar.
Quando os comentários despertam sofrimento persistente, vergonha intensa ou começam a condicionar a relação com a alimentação, o espelho ou a vida social, procurar apoio psicológico pode ser um passo importante para reconstruir uma relação mais saudável consigo próprio.
Cátia Silva reforça que, num tempo em que tanto se fala de saúde mental, importa lembrar que o respeito também passa pela linguagem. Cada comentário aparentemente inofensivo pode reforçar inseguranças, alimentar sofrimento ou perpetuar estigmas que já pesam demasiado sobre muitas pessoas.





