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Quando deixamos de nos ouvir: os sinais que ignoramos até ser tarde demais

O verão é frequentemente associado à pausa, ao descanso e à recuperação.

Mas para muitas mulheres, é precisamente quando o ritmo abranda que surge uma constatação desconfortável: estamos mais cansadas do que imaginávamos.

Não necessariamente cansadas porque trabalhámos mais numa determinada semana ou porque atravessámos um período particularmente exigente. Falamos de um desgaste mais silencioso, que se instala de forma gradual e que, muitas vezes, aprendemos a normalizar.

Porque continuamos a cumprir.

Continuamos a trabalhar, a liderar equipas, a gerir projetos, a acompanhar a família, a responder às necessidades dos outros e, muitas vezes, a adiar as nossas para mais tarde.

Por fora, tudo parece funcionar.

Por dentro, nem sempre.

Ao longo da minha carreira, tanto em funções de liderança como no trabalho que hoje desenvolvo com profissionais em processos de mentoria e desenvolvimento de carreira, encontrei muitas mulheres que chegaram a um determinado momento com a mesma reflexão:  “Talvez os sinais já lá estivessem. Eu é que não lhes dei a devida atenção.” 

E essa reflexão merece ser ouvida.

O problema raramente começa quando já não conseguimos continuar.

Começa muito antes.

Começa quando deixamos de prestar atenção ao que sentimos. Quando adiamos sistematicamente o descanso. Quando acreditamos que, depois deste projeto, desta fase ou deste desafio, teremos finalmente tempo para recuperar.

O problema é que a próxima exigência quase sempre chega antes desse momento.

E, aos poucos, aquilo que deveria ser excecional transforma-se numa forma permanente de viver.

Sem pretender substituir qualquer avaliação médica ou psicológica, há alguns sinais que merecem ser observados com honestidade.

A irritabilidade constante é um deles. Pequenas situações passam a exigir um esforço emocional desproporcionado e a paciência parece mais curta do que o habitual.

Outro sinal frequente é a sensação de estar sempre a correr. Há sempre uma tarefa por concluir, uma mensagem por responder ou um assunto por resolver. Mesmo nos momentos de descanso, a mente continua ocupada.

Por vezes surge também uma dificuldade em desfrutar das coisas boas. Estamos fisicamente presentes, mas nem sempre emocionalmente. Os momentos que deveriam trazer satisfação parecem perder intensidade.

E há ainda um sinal particularmente comum entre mulheres com elevados níveis de responsabilidade: a culpa associada ao descanso. Como se parar fosse um privilégio que ainda não merecemos ou um luxo que terá de ficar para mais tarde.

Porque é tão difícil reconhecer estes sinais?

Porque muitas de nós fomos educadas para ser resilientes, para encontrar soluções, para continuar apesar das dificuldades. E essas características são valiosas.

O problema surge quando a capacidade de continuar se transforma numa incapacidade de parar.

Quando ouvir o próprio corpo, reconhecer limites ou pedir apoio passam a ser interpretados como uma fragilidade.

Não é.

É um sinal de autoconsciência e maturidade.

Este tema não diz respeito apenas às profissionais. Diz respeito também a quem lidera equipas.

Um líder atento compreende que o desempenho sustentável não depende apenas de competências técnicas ou de objetivos bem definidos. Depende também da energia, do foco e da capacidade que cada pessoa tem para se manter saudável ao longo do tempo.

Mas existe uma realidade que nem sempre é discutida: muitos líderes vivem exatamente os mesmos sinais que observam nas suas equipas.

A responsabilidade de liderar pessoas, tomar decisões, gerir resultados e responder a múltiplas exigências pode levar os próprios líderes a ignorar sinais de desgaste durante demasiado tempo.

Por isso, liderar de forma sustentável começa por um exercício de autoconsciência.

Um líder que cuida da sua própria energia, que reconhece os seus limites e que procura apoio quando necessário está mais preparado para criar equipas saudáveis, ambientes de confiança e resultados consistentes.

Tal como acontece com muitas profissionais, também os líderes beneficiam de espaços externos de reflexão e desenvolvimento. Ter alguém que ajude a questionar pressupostos, a organizar prioridades e a ganhar perspetiva pode fazer a diferença entre reagir constantemente às exigências do dia a dia e liderar de forma mais consciente.

Durante muito tempo, admirou-se quem conseguia aguentar tudo.

Talvez tenha chegado o momento de valorizarmos também quem sabe escutar os sinais antes de chegar ao limite.

Porque cuidar da carreira, da família, das equipas e dos outros é importante.

Mas nenhuma dessas dimensões consegue prosperar de forma sustentável quando a pessoa que as sustenta deixa de cuidar de si própria.

E, por vezes, a decisão mais inteligente que podemos tomar não é continuar.

É parar o tempo suficiente para voltar a ouvir-nos.


Carla Costa

Trabalha na área da mentoria e desenvolvimento de carreira, com especial atenção aos desafios enfrentados por mulheres em momentos de transição e afirmação profissional.

Site: carlasofiacosta.com

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