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PHDA: o custo de não reconhecer e não tratar

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) continua, muitas vezes, a ser vista como um problema menor; uma questão de imaturidade, falta de regras, excesso de energia ou dificuldade dos pais em impor limites. Esta leitura, para além de injusta, é perigosa.

Sendo uma perturbação do neurodesenvolvimento, a PHDA tem impacto no funcionamento académico, emocional, familiar, social e profissional. Quando não diagnosticada e tratada, as consequências não se limitam à infância, podendo acompanhar a pessoa ao longo da vida e traduzir-se num custo humano, familiar e social muito elevado.

Na escola, quando esta condição não é, desde logo, tratada pode comprometer a aprendizagem desde cedo. A criança pode ter dificuldade em manter a atenção, organizar tarefas, cumprir instruções, terminar trabalhos, gerir o tempo e controlar impulsos. Muitas vezes sabe, mas não consegue demonstrar o que sabe; começa, mas não conclui; compreende, mas perde-se no percurso. O resultado pode ser insucesso escolar, retenções, conflitos com professores, rejeição pelos colegas e uma progressiva perda de autoestima. Ao longo dos anos, estas experiências repetidas de fracasso podem transformar uma dificuldade tratável numa história de desmotivação, desistência e sofrimento.

Na adolescência, o impacto pode tornar-se ainda mais complexo. As exigências aumentam, a supervisão diminui e espera-se maior autonomia, planeamento e autorregulação. Para muitos jovens com PHDA não reconhecida, este é o momento em que surgem ou se agravam dificuldades emocionais, ansiedade, sintomas depressivos, impulsividade, conflitos familiares, comportamentos de risco e acidentes. Não se trata de dramatizar a PHDA, mas de reconhecer que a ausência de diagnóstico e intervenção pode deixar o jovem sem explicação para as suas dificuldades e sem estratégias para as compensar.

Já na idade adulta, a PHDA pode continuar presente, mesmo que a hiperatividade motora diminua. Persistem, frequentemente, a desorganização, a procrastinação, a impulsividade, a instabilidade emocional e a dificuldade em cumprir prazos e em manter rotinas. Estas adversidades podem interferir na formação académica, na qualificação profissional, na produtividade, na estabilidade laboral e nas relações interpessoais. Uma criança não apoiada pode tornar-se num adulto que vive abaixo do seu potencial, acumulando frustrações que poderiam ter sido prevenidas.

O impacto social da PHDA não tratada é, por isso, significativo. A literatura tem associado esta perturbação não diagnosticada ou inadequadamente tratada a maior risco de insucesso educativo, dificuldades no emprego, menor produtividade, problemas familiares e relacionais, acidentes, dependências e envolvimento em comportamentos antissociais. Estes percursos têm custos para a pessoa, para as famílias, para a escola, para os serviços de saúde, para a justiça e para a economia.

Diagnosticar não é rotular. Pelo contrário, é compreender para intervir melhor. Tratar não é “medicalizar” a infância, nem substituir a educação por medicamentos. É construir uma resposta ajustada, que pode incluir psicoeducação, apoio à família, articulação com a escola, estratégias pedagógicas, intervenção psicológica ou comportamental e, quando indicado, terapêutica farmacológica cuidadosamente monitorizada. A intervenção adequada reduz o sofrimento, melhora o funcionamento e pode prevenir trajetórias de risco.

A PHDA deve ser encarada como uma questão de saúde, educação e inclusão social. Ignorá-la não a faz desaparecer. Apenas aumenta a probabilidade de consequências futuras.

O Dia Mundial da PHDA, celebrado a 13 de julho, é uma oportunidade para combater mitos, reduzir o estigma e reforçar uma ideia essencial: reconhecer e tratar atempadamente esta condição pode mudar vidas e reduzir custos sociais evitáveis.

Estes temas são explorados no livro “Compreender a PHDA”, publicado pela LIDEL Editora, que procura contribuir para uma visão mais científica, rigorosa e humana desta perturbação.


José Boavida

Pediatra do Neurodesenvolvimento

Autor do livro “Compreender a PHDA” (LIDEL Editora)

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