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Intuição ou ilusão? A voz que aprendeu a ignorar

Já sentiu aquela certeza de que não conseguia explicar?

Não era lógica, não tinha dados, nem provas. Era apenas uma sensação firme e silenciosa, insistente. Às vezes no peito ou no estômago. Em alguns momentos, era uma voz baixa que dizia: “não, não é por aqui”.

E ignorou.

Depois, quando tudo se confirmou, veio aquela frase que todas nós já dissemos pelo menos uma vez na vida: “Eu sabia. Eu sabia desde o início.”

A intuição é, talvez, o recurso mais poderoso que existe dentro de cada uma de nós — e também o mais silenciado. Não porque seja fraca, mas porque fomos, ao longo da vida, ensinadas a duvidar dela. “Estás a exagerar”, “é uma coisa da tua cabeça”, “não há nada que justifique o que estás a sentir”. Essas frases, repetidas desde cedo — em casa, na escola, nos relacionamentos — , foram fazendo o seu trabalho silencioso. E aos poucos, a voz que sabia foi ficando mais baixa, mais hesitante, até que muitas de nós simplesmente parámos de a ouvir.

Não perdemos a intuição. Aprendemos a calá-la.

Existe uma pergunta que aparece com frequência, e que eu considero uma das mais importantes que uma mulher pode fazer a si mesma: “Isto que estou a sentir é intuição ou é ilusão?”

É uma distinção fundamental, porque nem tudo o que sentimos é sabedoria — e confundir os dois pode custar-nos caro.

A ilusão costuma chegar com urgência, com ansiedade, com a necessidade de que algo seja verdade. Ela é moldada pelo desejo, pelo medo, pela história que queremos que aconteça. A ilusão grita.

A intuição é diferente. Ela chega quieta, sem pressa, sem a necessidade de se provar. É uma certeza que não precisa de aplausos, apenas de atenção. Não insiste, não pressiona, não ameaça. Ela simplesmente permanece.

Quando há dúvida entre as duas, é importante perguntar: “Isto que sinto vem da paz ou vem do medo?”

Porque o medo é o grande disfarce. Ele imita a intuição com uma precisão assustadora, também mexe com o corpo, também cria sensações físicas, também parece urgente e verdadeiro. A diferença é que o medo contrai. A intuição, mesmo quando traz um recado difícil, expande.

As mulheres são, por natureza e por fisiologia, mais intuitivas. Não é misticismo, é ciência. O sistema nervoso feminino é estruturalmente mais conectado à leitura de sinais subtis do ambiente, das emoções, das pessoas. Durante gerações, as mulheres desenvolveram uma capacidade extraordinária de perceber o que não foi dito, de sentir o que ainda não aconteceu, de ler o invisível.

Esse é um poder real, uma inteligência genuína.

O problema é que esse poder foi sistematicamente desvalorizado numa cultura que recompensou a razão e desconfiou da sensação, que chamou de drama o que era percepção, que chamou de sensibilidade o que era sabedoria. E assim, muitas de nós fomos fazendo o processo contrário — calando uma voz que era, desde sempre, um dos nossos maiores recursos.

Eu só consegui chegar onde cheguei porque dentro de mim havia uma intuição muito forte de que era preciso mudar, mesmo sem saber exatamente o que iria acontecer— e escolhi confiar e não trair essa voz interna.

Nem sempre foi fácil. Houve momentos em que senti que não havia lógica no que estava a fazer, que continuar parecia arriscado, irracional ou até irresponsável. Mas havia uma certeza — quieta, firme, persistente — que não desaparecia. Siga!

Aprendi, com o tempo, a distinguir essa voz do ruído, a reconhecer a diferença entre o que o medo queria que eu fizesse e o que a minha intuição sabia que era certo.

E vejo isso repetidamente nas mulheres que acompanho. Aquelas que foram tolhidas na infância — que ouviram demasiadas vezes que estavam a exagerar, que o que sentiam não era real — chegam ao processo tendo quase esquecido que essa voz existe. O trabalho, muitas vezes, não é desenvolver a intuição. É remover o que a está a silenciar.

A intuição não é um dom reservado a algumas. É uma capacidade natural, especialmente feminina, que pode ser reconectada, cultivada e confiada.

Mas para isso é preciso, primeiro, criar silêncio suficiente para ouvi-la. Porque numa vida cheia de ruído, de urgências, de opiniões alheias e expectativas externas, a voz mais importante acaba por ser a que menos conseguimos ouvir.

A voz que sabe. Que sempre soube. Que só precisava — e ainda precisa — que parasse o suficiente para escutá-la.

“O que está a sentir agora — vem da paz ou vem do medo?” Esta pergunta pode mudar tudo.


Carolina Padilha 

Comunicadora de bem-estar, consciência e performance humana

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Instagram: @eusou.carolinapadilha 

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