Vivemos numa sociedade que raramente desacelera. A produtividade tornou-se um valor central da cultura atual e a ocupação permanente parece ter adquirido o estatuto de virtude. Corremos de compromisso em compromisso, respondemos a mensagens a qualquer hora, acumulamos responsabilidades profissionais e pessoais e, muitas vezes, terminamos o dia com a sensação de que fizemos muito, mas estivemos pouco presentes. O paradoxo é evidente. Nunca tivemos tanto acesso a informação sobre saúde mental, bem-estar e qualidade de vida. No entanto, os níveis de ansiedade, stress e burnout continuam a aumentar. Importa, assim, perceber que conhecer a importância do autocuidado não é o mesmo que autorizarmo-nos a praticá-lo.
Há cada vez mais autores que descrevem a sociedade atual como uma sociedade do desempenho. Já não somos apenas pressionados por exigências externas, tornámo-nos exigentes connosco próprios. Procuramos fazer mais, produzir mais, alcançar mais. E quando não conseguimos corresponder às expectativas que criámos, frequentemente respondemos com culpa, autocrítica severa ou ainda mais esforço.
Vale a pena sim sublinhar que o corpo e a mente não funcionam segundo a lógica da produtividade infinita.
Do ponto de vista neurobiológico, os seres humanos necessitam de alternar entre estados de ativação e estados de recuperação. O sistema nervoso foi concebido para responder a desafios, mas também para descansar. Quando permanecemos demasiado tempo em modo de alerta, o organismo começa a dar sinais de desgaste: irritabilidade, dificuldades de concentração, alterações do sono, fadiga persistente, ansiedade e sensação de esgotamento emocional.
Por isso, o autocuidado não deve ser encarado como um luxo, um prémio ou uma recompensa para quando tudo estiver feito. É, sim, uma necessidade psicológica e biológica – absolutamente crucial para o nosso bem-estar e saúde global.
Contudo, existe ainda uma visão simplificada do autocuidado. Muitas vezes, é apresentado como um conjunto de gestos agradáveis ou, no limite, indulgentes: uma massagem, um banho relaxante, uma escapadinha de fim de semana. Embora tudo isso possa ser benéfico e fazer parte do processo, o verdadeiro autocuidado é muito mais exigente.
Autocuidado real passa por estabelecer limites saudáveis, reconhecer que a energia não é inesgotável, respeitar os sinais do corpo antes que se transformem em sintomas ou proteger tempo para descansar sem sentir necessidade de o justificar.
Autocuidado real é também compreender que o nosso valor não depende exclusivamente daquilo que fazemos, produzimos ou conquistamos. Talvez seja precisamente esta última ideia que mais desafia a cultura atual. Vivemos num contexto que frequentemente associa valor pessoal a desempenho. Como se o descanso tivesse de ser merecido. Como se parar fosse uma forma de falhar. Porém, a ciência mostra-nos exatamente o contrário. O descanso adequado melhora a capacidade de tomada de decisão, fortalece a regulação emocional, aumenta a criatividade e contribui para uma maior saúde física e mental. Não é um obstáculo à produtividade sustentável, é uma das suas condições fundamentais.
Neste dia dedicado ao Autocuidado, diria que a reflexão mais importante não seja perguntar o que podemos acrescentar à nossa lista de tarefas para cuidar de nós, mas sim questionarmo-nos, com curiosidade e gentileza, sobre o que podemos retirar.
Que possamos experimentar adotar hábitos que nos remetam para menos pressa, menos exigência constante e menos necessidade de provar valor através da ocupação permanente.
Num mundo que nos incentiva continuamente a fazer mais, o autocuidado tornou-se um ato de sabedoria. Um compromisso diário com a nossa saúde mental, com os nossos limites e com a nossa humanidade. Porque cuidar de nós não é um luxo para os dias em que sobra tempo. É uma necessidade para todos os dias em que queremos continuar a viver — e não apenas a sobreviver.
Helena Paixão
Psicóloga Clínica
Founder & CEO da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal

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